segunda-feira, 4 de maio de 2015

O GOSTO PROIBIDO DO GENGIBRE


Nos dias de hoje somos constantemente bombardeados com as mais diversas definições e teorias sobre o conceito de amor. As redes sociais não se cansam de publicar, em variadas páginas, textos e frases que suscitam imediatamente reacções muito diversas por parte dos jovens (e não só), provocando imediatamente uma onda de comentários, na maior parte das vezes ridiculamente previsíveis… Parece que, gradualmente, o conceito de amor vai sendo banalizado até ao ponto de muita gente não saber distinguir o que é verdadeiramente.
Li recentemente um livro cujo título é O gosto proibido do gengibre. Nunca pensei, quando o tive nas mãos, que um dia chegasse a querer escrever sobre ele, nem sequer imaginei que esta obra ocupasse um lugar privilegiado durante tanto tempo na minha cabeça… E, claro, no meu coração. A história é aparentemente simples, no entanto encerra uma riqueza extraordinária que se reflecte, tanto nos valores e sentimentos transmitidos, como no próprio conteúdo histórico. Henry Lee, um americano de ascendência chinesa, regressa ao Hotel Panama, que antigamente era o ponto de encontro da comunidade japonesa de Seattle. Este hotel tinha estado fechado durante décadas, até que uma rapariga decidiu adquiri-lo, tornando-se a nova proprietária. Descobriu, na cave poeirenta, os pertences de algumas famílias japonesas que, após o ataque a Pearl Harbor, foram enviadas para campos de concentração. Henry reconhece uma sombrinha de bambu que o faz retroceder quarenta anos no tempo, fazendo-o pensar inevitavelmente em Keiko, uma rapariga japonesa com a qual mantinha uma forte relação de amizade e, posteriormente de amor, um amor inocente e belo que foi capaz de ultrapassar os preconceitos culturais que havia naquela altura. Quando Keiko e a sua família são enviados para um campo, só lhes resta a ambos esperar que a guerra finalize para que todas as promessas que fizeram um ao outro possam cumprir-se… Porém, passados quarenta anos, Henry, viúvo e com um filho, procura dar resposta àquele vazio que sente provocado entre outras coisas, pela ausência de Keiko que nunca mais voltou a ver… E que nunca esqueceu.

É verdadeiramente enternecedor ler os episódios nos quais Henry fala de Keiko e descreve a relação que ambos mantinham de uma maneira simples e comovente, transmitindo a ideia de que o amor é a captação de que a outra pessoa é única e irrepetível. O amor não tem necessariamente que ser provado mediante gestos exacerbados ou palavras grandiosas, mas através das pequenas coisas… E, muitas vezes, também no sofrimento e na dor. A verdade é que, actualmente, há uma certa tendência para definir o amor como uma condição psicofísica ou como um sentimento que vai e vem ao sabor do vento. Esta definição causa inúmeras vezes um medo avassalador ao compromisso, a comprometer-se com alguém. É muito frequente ouvir (infelizmente) às pessoas da minha idade a frase “um amor que dure para sempre só existe nos contos de fadas”… Tudo, porque não sabemos cuidar as pequenas coisas… Tudo, porque não sabemos o que é o amor.

Aconselho vivamente esta leitura, que para além de ser muito cativante e fácil de ler, ajuda-nos a reflectir sobre vários aspectos fundamentais nos quais todos deveríamos pensar algum dia devido à enorme importância que têm, ou deveriam ter na nossa vida.

Maria Calderón

    

 

3 comentários:

  1. Mais um texto inspirador que mostra muito bem como alguns dos ideais mais importantes para algumas pessoas estão tão banalizados para outros. O que mostra que na nossa sociedade actual ,infelizmente, um simples click ou um like são tão, ou mais , importantes do que a ideia e o sentimento tão profundo que é o amor.
    Muitos parabéns!

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