terça-feira, 5 de maio de 2015

GANHAR TEMPO

  O tempo é algo difícil de entender. Não está nas nossas mãos controlá-lo: fazer com que acelere quando não gostamos do trabalho que temos entre mãos; atrasá-lo, para que os bons momentos permaneçam. Apesar disso, cabe a cada um aproveitá-lo da melhor forma, não deixar que se escape esterilmente, que a corrente dos minutos e das horas não nos arraste pelo rio da improdutividade. Talvez alguém já se tenha detido a pensar sobre o mesmo, porque os livros existem e estão ao nosso alcance.
  Ler. Ler é a única arma que combate as barreiras do tempo, que vence os limites do intransponível. Com certeza não o explicam nas escolas, pois, se assim fosse, não haveria tantas crianças desocupadas, tantos iPads debaixo da árvore de Natal, tantos olhos vidrados em ecrãs.
Os livros têm a capacidade única de nos transportar, de nos fazer sair do sítio e do momento em que vivemos, da pessoa que somos, para mergulharmos noutros mundos, noutras realidades. De que outra  forma poderíamos conhecer tanta gente em tão pouco tempo? Viajar por tanto tantos sítios em tão pouco tempo? Aprender tantas coisas em tão pouco tempo? Os livros guardam o tesouro das palavras e estas, quando lhes tocamos, transformam cinco minutos de intervalo em cinco dias de aventura, uma viagem de autocarro para casa num cruzeiro pelo mediterrâneo, uma fila de espera numa imparável correria de afazeres, uma conferência entediante num debate arrebatador, um documentário medíocre numa vista apaixonante... Enriquecemos as nossas horas, os nossos dias, as nossas vidas, com um simples virar a folha, e o momento que antes poderia passar despercebido ganha relevo, o tempo desdobra-se, como um guarda-fatos de Nárnia para cada um de nós. E é tão bom poder abri-lo! Escapar às obrigações, preocupações, às esperas, aos discursos vazios e voar nas palavras para o destino que quisermos, ao encontro daqueles que, apesar de só conhecermos há dez páginas, já ocupam metade do nosso pensamento.
  Ler só é um dever para aquele que, preso às amarras do dia a dia, ainda não captou toda a sua dimensão. Não ter tempo para ler? Mas se se ganham tantas horas ao fazê-lo! Por essa razão, um obrigado aos escritores, por ocuparem o seu tempo a oferecer tempo aos outros! 


segunda-feira, 4 de maio de 2015

ESTRELAS



Quem me conhece bem já está familiarizado com este meu fascínio. É uma das grandes tristezas de viver numa cidade, com tanta poluição. Olhamos para o céu e vemos apenas o azul profundo e escuro, que esconde em si um manto de estrelas. Nos cantinhos e caminhos que, por vezes, encontramos com fraca iluminação lá conseguimos vislumbrar algumas constelações, o que tem como consequência o meu pescoço esticar-se automaticamente. Não vale a pena tentar manter contacto visual comigo, pois reservo este para as minhas raras amigas estrelas.
Olhar para o céu faz-me sentir pequena e grande ao mesmo tempo. Pequena porque somos apenas um pontinho no universo, em constante expansão, formigas para quem estiver a um mero ano-luz. Mas também grande, porque sinto que estão ao meu alcance em pontas dos pés, inspiram-me e fazem-me querer elevar-me aos limites.
Não sabia que existiam de verdade, mas neste verão vi duas estrelas cadentes. Iguais às que se vêem nos filmes e se lêem nos livros (tirando o pormenor de que não são na realidade estrelas, mas sim fragmentos a cair a toda a velocidade no espaço). Não pude deixar de pedir um desejo com a passagem de cada uma. Coincidência ou não, a verdade é que os desejos se concretizaram, os dois (não estou a mentir, tanto que um deles era entrar na faculdade que queria).
Esta realização dos desejos pode até ser derivada do próprio ato, sendo que quando desejamos, inconscientemente agimos como se soubéssemos que vai acontecer, independentemente de como procedermos (como, por exemplo, no Harry Potter, quando o Ron pensa que o Harry lhe pôs Felix Felicis – uma poção que faz com que tenhas sucesso em tudo o que faças durante o período de efeito – na bebida no dia das audições para o Qwiditch, e acaba por arrasar, apesar de o Harry não lhe ter posto nada; aquela confiança de que ia conseguir ajudou-o a perder os nervos).
Concluindo, e já nem sei o que é este texto, vou só chamar-lhe uma desorganizada reflexão sobre as estrelas, devemos todos olhar para cima quando as luzes estiverem em baixo, pois nunca se sabe a inspiração que nos pode acometer.

Mariana Espírito Santo




O GOSTO PROIBIDO DO GENGIBRE


Nos dias de hoje somos constantemente bombardeados com as mais diversas definições e teorias sobre o conceito de amor. As redes sociais não se cansam de publicar, em variadas páginas, textos e frases que suscitam imediatamente reacções muito diversas por parte dos jovens (e não só), provocando imediatamente uma onda de comentários, na maior parte das vezes ridiculamente previsíveis… Parece que, gradualmente, o conceito de amor vai sendo banalizado até ao ponto de muita gente não saber distinguir o que é verdadeiramente.
Li recentemente um livro cujo título é O gosto proibido do gengibre. Nunca pensei, quando o tive nas mãos, que um dia chegasse a querer escrever sobre ele, nem sequer imaginei que esta obra ocupasse um lugar privilegiado durante tanto tempo na minha cabeça… E, claro, no meu coração. A história é aparentemente simples, no entanto encerra uma riqueza extraordinária que se reflecte, tanto nos valores e sentimentos transmitidos, como no próprio conteúdo histórico. Henry Lee, um americano de ascendência chinesa, regressa ao Hotel Panama, que antigamente era o ponto de encontro da comunidade japonesa de Seattle. Este hotel tinha estado fechado durante décadas, até que uma rapariga decidiu adquiri-lo, tornando-se a nova proprietária. Descobriu, na cave poeirenta, os pertences de algumas famílias japonesas que, após o ataque a Pearl Harbor, foram enviadas para campos de concentração. Henry reconhece uma sombrinha de bambu que o faz retroceder quarenta anos no tempo, fazendo-o pensar inevitavelmente em Keiko, uma rapariga japonesa com a qual mantinha uma forte relação de amizade e, posteriormente de amor, um amor inocente e belo que foi capaz de ultrapassar os preconceitos culturais que havia naquela altura. Quando Keiko e a sua família são enviados para um campo, só lhes resta a ambos esperar que a guerra finalize para que todas as promessas que fizeram um ao outro possam cumprir-se… Porém, passados quarenta anos, Henry, viúvo e com um filho, procura dar resposta àquele vazio que sente provocado entre outras coisas, pela ausência de Keiko que nunca mais voltou a ver… E que nunca esqueceu.

É verdadeiramente enternecedor ler os episódios nos quais Henry fala de Keiko e descreve a relação que ambos mantinham de uma maneira simples e comovente, transmitindo a ideia de que o amor é a captação de que a outra pessoa é única e irrepetível. O amor não tem necessariamente que ser provado mediante gestos exacerbados ou palavras grandiosas, mas através das pequenas coisas… E, muitas vezes, também no sofrimento e na dor. A verdade é que, actualmente, há uma certa tendência para definir o amor como uma condição psicofísica ou como um sentimento que vai e vem ao sabor do vento. Esta definição causa inúmeras vezes um medo avassalador ao compromisso, a comprometer-se com alguém. É muito frequente ouvir (infelizmente) às pessoas da minha idade a frase “um amor que dure para sempre só existe nos contos de fadas”… Tudo, porque não sabemos cuidar as pequenas coisas… Tudo, porque não sabemos o que é o amor.

Aconselho vivamente esta leitura, que para além de ser muito cativante e fácil de ler, ajuda-nos a reflectir sobre vários aspectos fundamentais nos quais todos deveríamos pensar algum dia devido à enorme importância que têm, ou deveriam ter na nossa vida.

Maria Calderón